Minhas margaridas não nasceram, minhas rosas tornaram-se vítimas dos próprios espinhos e mancharam-se de vermelho quando tentei ajudá-las. A terra tornou-se infértil e o sol cruel. Água era algo raro, a escassez feria o sorriso e a face era lavada só por lágrimas. As crianças deitavam no chão rachado e suplicavam por ajuda. As forças faltavam para ir em busca de algum riacho quase seco. A mãe corria para salvar o corpo do filho que morrera no meio do caminho. Eram inúmeras tentativas de salvar o filha da boca de animais famintos que rosnavam para a esperança que vencia os moradores irritados.
A visão da terra perdida se estendia até chegar aos braços tortuosos de um sol que se põe. As famílias já juntavam os panos e vasilhas e iam desviando dos corpos que os urubus não haviam deixado salvar. A miséria alimentava-se dos corações e dos gritos e gemidos. Algumas almas já julgavam-se perdidas pois a oração diária fora suspensa por tomar muitas energias, apesar dos joelhos já estarem acostumados a se dobrar em terras e pedras.
Com as mãos ressecadas, os joelhos sangrentos, os cabelos mal-tratados e os olhos desacreditados a irmã ia ensinado o irmão, que carregava com ele quatro anos de sofrimento, a brincar com a areia e pedras que iam achando pelo caminho. Eu, corria para admirar a única borboleta que havia visto em toda caminhada. Era um colorido de esperanças que logo se desfez com o vento ressecado que passou por mim. Era ilusão.
Lamentei minhas margaridas nunca vistas e minhas roseiras que sangraram até ressecar. Lamentei a miséria que passava o povo, a água escassa e as mãos velhas que cobriam a face desacreditada. Lamentava o desinteresse que os que nos viam carregavam no olhar e a magnífica harmonia que a chuva não mais trazia. Lamento por esse meu povo que tanto merecia.
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