domingo, 22 de janeiro de 2012

Valse de forma proibida, Madalena.

O relógio avisava cinco horas passadas após o almoço. Madalena rodopiava pela cozinha até a sala, a moça dançava desengonçada, havia ligado o rádio e a música acompanhou o vento acolhedor que entrava pelas grandiosas janelas abertas. Era sonho sair dançando por Paris e tomar as mãos de desconhecidos passando alegria e ritmo pelas mesmas. Sentou-se cansada no pequeno sofá que havia em frente a televisão bicolor pequenina. A valsa conduzia as pernas da moça para um balançar que a fez levantar, novamente. Alguma alegria acendia como fogo e deixava-a com face avermelhada. Não era apenas um estado emocional que a fazia ficar avermelhada, era mãos calorosas que acariciavam os braços da moça cuidadosamente. Sentia volúpia andar pelo corpo, sentia a alma aconchegar-se nos braços de um moço conhecido:
_ Não devias...
_Ah Madalena, teus cachos estão bonitos, teu olhar saudoso e teus lábios avermelhados. Pareces um querubim belíssimo. Estavas dançando tão alegre. Posso lhe acompanhar nesta valsa?
Madalena sabia o que estava fazendo, porém tinha medo. Lázaro era moço com casamento marcado, bibliotecário recém empregado. Ela havia o conhecido graças ao pai, que na época ainda trabalhava na biblioteca da pequena cidade quando Lázaro entrou para ajudar. Grandes amigos, Seu João, pai de Madalena, convidou o educado moço para um almoço. Os olhos dele trancaram e amarraram o olhar de Madalena durante a tarde toda. O moço foi-se e ela ficou ainda aprisionada ao olhar. Porém Lázaro estava noivo de Maria.

Ao aceitar o convite para a dança deixou-se guiar pelos braços e pés do moço pois as pernas pareciam ter lhe traído. A angústia descia pela garganta e queimava o estômago que parecia reconhecer tudo como uma simples cócega. A pequena risada foi inevitável. Apertou-a mais sobre o peito e valsou. Ao fechar os olhos compartilhou de toda a essência contida em si, cantarolou um bocado como com rouquidão inexistente. O vento ajudou no canto e soprou para levar as lágrimas que Madalena derramava. Ela amava, por isto chorava. Foi avisada desde pequenina para cuidar-se e prevenir-se de certo amor. Dizia ela sempre que iria ter cuidado e olhe só, agora ama quem noivo está.

Madalena sussurrava não poder:
_Deixe de ser boba Madalena, é apenas uma valsa, o que há de errado nisto?
O silêncio conturbava as palavras de Lázaro:
_Ama? Não se preocupe, amo também.
A moça ordenou que o moço saísse, apenas com gestos, palavras eram desnecessárias.

Ai anoitecer o sono, melhor, a falta dele, incomodava-a. Sentou-se na mesa e com apenas um feixe de luz escreveu em um pedaço de papel rasgado. Agora sim, dormiu sossegada. O sol já raiava e os vizinhos cochichavam: "Onde vai Madalena?" A moça, com suas malas buscava outra cidade, outro campo, outro amor e mais cor.

Dizia o bilhete deixado no correio de Lázaro:
"Amo sim, moço. Ah! E como o amo. Porém com amor não se brinca ou se valsa. Terei de procurar a dança que acolhe melhor minhas lágrimas e meu corpo. Acho difícil. Valsas bonito e de forma incomparável. Digo eu que não se preocupes, teu calor e teu amor são únicos. Buscarei apenas algo que complete alguns pedaços de poesia que deixei com o senhor. Palavras desconhecidas também formam uma bela poesia, amorosa. Deixo com o senhor o beijo de sabor avermelhado que nunca pude lhe dar."

Lázaro sabia, era Madalena que escrevia.

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